4 de setembro de 2017

RESENHA: Os homens explicam tudo para mim

Editora: Jangada
Autor(a): Rebecca Solnit
Número de páginas: 208

Sinopse: Em seu ensaio icônico “Os Homens Explicam Tudo para Mim”, Rebecca Solnit foca seu olhar inquisitivo no tema dos direitos da mulher começando por nos contar um episódio cômico: um homem passou uma festa inteira falando de um livro que “ela deveria ler”, sem lhe dar chance de dizer que, na verdade, ela era a autora. A partir dessa situação, Rebecca vai debater o termo mansplaining, o fenômeno machista de homens assumirem que, independente do assunto, eles possuem mais conhecimento sobre o tema do que as mulheres, insistindo na explicação, quando muitas vezes a mulher tem mais domínio do que o próprio homem. Por meio dos seus melhores textos feministas, ensaios irônicos, indignados, poéticos e irrequietos, as diferentes manifestações de violência contra a mulher, que vão desde silenciamento à agressão física, violência e morte. Os Homens Explicam Tudo para Mim é uma exploração corajosa e incisiva de problemas que uma cultura patriarcal não reconhece, necessariamente, como problemas. Com graça e energia, e numa prosa belíssima e provocativa, Rebecca Solnit demonstra que é tanto uma figura fundamental do movimento feminista atual como uma pensadora radical e generosa.

Olá gente lindaaa!!
Hoje vim falar de mais um livro feminista, porque sim, porque a cada dia que passa eu penso que precisamos falar sobre as questões de gênero, mais do que nunca (a exemplo disso, confiram este post que fiz na Fanpage!).
"Os homens explicam tudo para mim" é um livro que reúne ensaios feministas (escritos entre 2008 e 2014) da jornalista, historiadora e escritora Rebecca Solnit. Esses ensaios apresentam diversos exemplos reais de casos extremos de misoginia, machismo e da luta diária de toda mulher, evidenciando o fato de que nascer mulher e existir plenamente em nossa sociedade é quase um ato revolucionário.

No primeiro ensaio, "Os homens explicam tudo para mim", a autora apresenta uma situação inusitada pela qual passou, quando um homem ficou por vários - e longos - minutos falando de um livro que ela PRECISAVA ler, sem ao menos lhe dar oportunidade (ou espaço na conversa) para explicar que ela própria era a autora do tal livro. Isso seria um exemplo isolado, se cada uma de nós, mulheres, não tivesse um exemplo parecido para contar.

"O homens explicam tudo para mim, e para outras mulheres, quer saibam ou não do que estão falando. Alguns homens." (página 15)
"Não se esqueça de que já tive na minha vida muito mais confirmações do meu direito de pensar e falar do que a maioria das mulheres, e aprendi que duvidar de si mesmo, em certa dose, é uma boa ferramenta para alguém se corrigir, compreender e progredir - embora duvidar de si mesmo, em excesso, seja paralisante e a autoconfiança total produza idiotas arrogantes." (página 16)
"A maioria das mulheres luta em duas frentes - uma pelo tópico em questão, qualquer que seja, e outra simplesmente pelo direito de falar, de ter ideias, de ser reconhecida como alguém que está de posse de fatos de verdade, que tem valor, que é um ser humano." (página 22)
Esse primeiro exemplo pode parecer algo sem muito sentido, sem muito significado e muitos (em sua maioria, homens) podem achar que se trata de mero mimimi por parte das mulheres, mas, vejam bem, se nós precisamos brigar com unhas e dentes pelo simples direito à fala, pelo direito de participar de uma conversa, de ser ouvida, de poder se expressar... bem, significa que precisamos lutar mais ainda (muito mais) por outros direitos.
"As coisas melhoraram, mas essa guerra não vai terminar durante o meu tempo de vida. Eu continuo lutando - por mim mesma, sim, mas também pelas mulheres mais jovens, na esperança de que consigam, de fato, dizer o que elas têm a dizer." (página 22)
Nos ensaios seguintes, Rebecca Solnit apresenta vários exemplos de misoginia, fala da frequência com que mulheres são estupradas ou assediadas nos Estados Unidos e no fato de que, na grande maioria dos casos a vítima ser responsabilizada por isso (seja pela mídia, pela justiça, pelas pessoas...), por estarem usando roupas provocantes, por estar fora de casa em um horário "inapropriado" (para as mulheres, é claro).
"Qual é o problema da masculinidade? Existe alguma coisa na maneira como a masculinidade é imaginada, naquilo que é elogiado e incentivado, na maneira como a violência é transmitida aos meninos, alguma coisa que precisamos olhar com atenção." (página 50)
E, sabem, não precisamos olhar para os casos dos Estados Unidos para saber que isso é real, que isso acontece com uma frequência alarmante e que nossa luta está apenas começando. Na última semana, por exemplo, houve um caso absurdo em que um homem simplesmente EJACULOU no rosto de uma passageira dentro de um transporte público. E, ainda que o sujeito já tivesse diversas passagens por crimes semelhantes, o juiz José Eugênio Do Amaral Souza Neto (gravem esse nome), determinou a soltura do criminoso, alegando que não houve constrangimento, agressão ou ameaça. COMO ASSIM???
O Brasil é um estranho país onde amamentar em público é algo polêmico e quase um atentado ao pudor, mas ejacular no rosto de uma pessoa SEM CONSENTIMENTO E DENTRO DE UM ÔNIBUS, não é nada demais. Engraçado (#sqn) que uma cusparada é considerada um ato de agressão e ameaça, mas uma ejaculada, não. Pois bem, o sujeito foi preso na segunda-feira (28/08), solto na quarta-feira (30/08) e, no último sábado (02/09), foi preso novamente, em flagrante, ao cometer o mesmo crime. Sim, após apenas 3 dias o sujeito teve a cara de pau (e a certeza da impunidade, evidentemente) de cometer o mesmo crime.
"É isso que queremos dizer com 'democracia': que todas as pessoas têm voz, que ninguém fique impune devido à sua riqueza, seu poder, sua raça ou seu gênero." (página 64)
"[...] mesmo agora, quando uma mulher diz algo incômodo sobre a má conduta masculina, ela é rotineiramente retratada como louca, delirante, uma conspiradora maldosa, uma mentirosa patológica, uma chorona que não percebe que foi tudo apenas brincadeira - ou todas as alternativas acima." (páginas 144-145)
"'O que eles querem? Ganhar um biscoitinho por não bater, estuprar nem ameaçar as mulheres?'. As mulheres sentem o tempo todo o medo de serem estupradas e assassinadas, e por vezes é mais importante falar sobre isso do que proteger o bem-estar masculino. Ou como disse num tweet uma pessoa chamada Jenny Chiu: 'Claro que #NotAllMen [#NemTodosOsHomens] são misóginos e estupradores. Essa não é a questão. A questão é que #SimTodasAsMulheres vivem com medo dos que são'." (página 160)
***
"Os homens explicam tudo para mim" não é um livro apenas sobre o fato de que as mulheres, ainda hoje, são silenciadas, atacadas, desacreditadas, questionadas... é um livro que dá relevo a coisas que estão debaixo do nosso nariz, mas que não vemos (ou preferimos não ver) e sobre o fato de que não é porque alguns direitos foram conquistados ao longo de tantos anos de luta, que temos de nos dar por satisfeitas (porque ainda tentam justificar o estupro, porque ainda dizem que em 'briga de marido e mulher não se mete a colher', etc). Nossa lutar está longe de terminar e juntas somos mais fortes. #sororidade

Classificação: 

***
Espero que gostem!!

Beijos e amassos!!

3 comentários

  1. Li seu post no facebook assim que vc publicou, eu queria escrever algo mas não sabia como, e até agora não sei, porque é como vc disse, não é mulheres x homens, mas contra o machismo. Nos últimos tempos essa discussão ganhou força e achei que poderia ser um divisor de águas, mas esse juiz no caso da passageira do ônibus, que me fez desacreditar no ser humano, dizer que não houve constrangimento é simplesmente revoltante. Parece que a luta está cada vez mais longe de terminar.

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    1. Oi, Patrícia, tudo bem?
      Pois é, eu também perco as palavras nessas situações.´É como receber um soco no estômago quando vejo essa incompreensão sobre o feminismo, quando vejo a própria mídia transformar vários relatos de misoginia, sexismo, machismo, etc. em mimimi, quando vejo mulheres defendendo atos desse tipo porque aconteceu com uma desconhecida, não com ela própria ou alguém da família. Não é fácil, mas não podemos nos deixar vencer. Vamos à luta!

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  2. Saudações Lady Amanda,
    Mais uma vez trazes uma excelente resenha de mais um dos livros que deveriam ser obrigatórios na sociedade. E é tudo tão comum, tão próximo, acontece todos os dias, com qualquer uma. E isso, é de fato, desesperador. É só parar para ouvir a conversa no ônibus, olhar com - muita ou pouca atenção - atos e diálogos na rua, na faculdade, no trabalho... É bem perturbador. A luta não para. É diária e incansável.

    O Castelo foi reaberto, venha conferir as novidades!
    Att.
    A Rainha ♛ The Queens Castle
    Amores improváveis: no colégio
    As luzes mais brilhantes

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