27 de dezembro de 2021

RESENHA: O dilema do porco-espinho

Editora: Planeta
Autor(a): Leandro Karnal
Número de páginas: 192
Sinopse: O poeta Vinicius de Moraes cantava 'que é melhor se sofrer junto, que viver feliz sozinho”. Será? O historiador Leandro Karnal, um dos intelectuais brasileiros que, através de seus livros, palestras e vídeos, nos ajuda a pensar o mundo contemporâneo, discute uma questão presente na vida de todos: a solidão.
A partir de referências de filósofos e da própria Bíblia, de fatos históricos e de romances, ele faz uma reflexão sobre a natureza de viver só - por pouco ou muito tempo, estando ou não acompanhado. Apresenta como a solidão é encarada no cinema, na literatura, na música, nas artes. Mostra que ela pode ser iluminadora e como Deus se revela aos solitários. O mesmo Deus que, segundo Gêneses, teria dito: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e corresponda.” E expõe como se desenvolveu a tradição judaico-cristã da solidão.
Em O dilema do porco-espinho, Karnal viaja pela modernidade líquida e analisa a solidão no mundo virtual e o isolamento. Discute dos amigos imaginários criados pelas crianças aos pensamentos de alguns filósofos, como Aristóteles, que dizia que a solidão criava deuses e bestas. Como a solidão é um tema que sempre o acompanhou e, segundo revela o próprio Karnal, tem crescido na maturidade, o autor escreve este livro como um ensaio pessoal. Ao dividir suas meditações, o autor convida o leitor, durante o ato da leitura, a deixar a solidão de lado e compartilhar seus pensamentos também.

Olá gente lindaaaa!
Como eu tenho dito nas últimas postagens aqui do blog: quem é vivo, sempre aparece! E hoje eu "apareci" para fechar o ano com chave de ouro, trazendo a resenha de "O dilema do porco-espinho: como encarar a solidão", de Leandro Karnal, que me fez refletir sobre tantas coisas... 
Foram poucos livros lidos este ano, e menos ainda resenhados. Achei pertinente, então, que "O dilema do porco-espinho" fosse logo a última leitura (e resenha) do ano, já que trata de um assunto que faz (fez e/ou fará) parte da vida de todos nós, de um modo ou de outro.

Vale ressaltar que o título do livro vem, na verdade, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que usa a metáfora do porco-espinho para explicar a convivência humana. Resumidamente, segundo Schopenhauer (e também Karnal, neste livro), somos todos porcos-espinhos e, quando sentimos frio (e vontade de companhia), aproximamo-nos uns dos outros, mas nossa proximidade, por causa dos nossos espinhos, machuca. Logo, afastamo-nos novamente para evitar sermos machucados. Mas, invariavelmente, voltamos a nos aproximar uns dos outros e o ciclo se repete. 
O livro é dividido em introdução, seis capítulos e a conclusão, e o autor trás várias informações super interessantes sobre a temida e/ou desejada solidão, como o fato de o governo da primeira-ministra britânica Theresa May ter criado o chamado Ministério da Solidão - 9 milhões de britânicos reclamam de total  solidão, desde idosos a súditos com problemas de mobilidade.
Além disso, o autor aponta para o fato de que as cidades estão cada vez mais populosas, mas ocorre, por outro lado, o que ele chama de "esvaziamento de laços pessoais e significativos". Alguém mais se identifica? Ao longo dos capítulos, estrategicamente nomeados, o autor fala do senso comum de que "não é bom que o homem esteja só", revelando aí um medo comum da solidão.
"Curiosamente, a conectividade elimina ou diminui o  contato com tudo que está próximo. Estamos preenchidos de pessoas virtuais e isolados de seres reais próximos." (página 24)
Em seguida, o autor aborda a solidão contemporânea criada pelas redes sociais, na qual estamos o tempo todo conectados, mas cada vez mais solitários em nossas relações virtuais, artificiais e superficiais. As relações pessoais e presenciais estão cada vez mais rasas e raras. A internet, que poderia ser a solução para muitas relações - afinal, por meio dela é possível manter contato apesar de qualquer distância geográfica -, acaba por transformá-las em uma troca de emojis e vício em curtidas. São poucos os que ainda preferem o olho no olho aos emojis.
"As rede sociais podem reunir multidões e ter potencial agregador e mobilizador, mas sua função revelou-se mais simplória: serve, antes de mais nada, para reafirmar o self, criar a ilusão da companhia, o vício da curtida." (página 46)
"Usamos as redes sociais para suprir um vazio, uma sensação de solidão anterior à existência delas ou as redes criaram e alimentam esse sentimento, que pode levar à compulsão e ao vício?" (página 51)
Nos capítulos seguintes, intitulados "Solidão, solitude e livros", "O Deus da solidão" e "A imagem do solitário: arte e cinema em busca do isolamento imagético", o autor explora - com ricos exemplos - o modo como a solidão é abordada na literatura, nas religiões e no cinema: na literatura, a ideia de solidão pode ser fonte de inspiração (para os escritores) e de amadurecimento (para os personagens); no Cristianismo e outras religiões essa solidão pode ser punitiva ou o meio para a iluminação e/ou contato com o divino; no cinema, o autor explora a relação entre arte e solidão.
"Estar só é condição de ser livre." (página143)
No último capítulo, por sua vez, denominado "As solitárias", fugindo das várias ideias romantizadas da solidão (como fonte inspiração, meio para a iluminação e arte), Karnal fala sobre a solidão como modo punitivo, capaz de tirar do indivíduo até a sanidade. A privação de relações e contato com outros seres, imposta pelo isolamento absoluto forçado, pode enlouquecer. 
"A solidão é cruel, e, por sabermos disso, criamos formas de punir por meio dela." (página 151)
Nesse capítulo, além das solitárias existentes em prisões, que são bastante temidas pelos prisioneiros, o autor cita outros tipos, mais sutis, como as solitárias criadas para os idosos e moribundos. A solidão na velhice é tema retomado diversas vezes no livro, de modo bastante real e sensível. Fiquei pensando em como deve ser difícil sobreviver ao tempo e às mudanças de geração, de modo que fica, em determinado momento, difícil (ou impossível) ter um assunto em comum para conversar com os filhos e netos, por exemplo. Imagine só: as referências da sua geração se perderam, os amigos da sua geração estão morrendo e você é sobrevivente em um mundo novo, cheio de referências novas com as quais você não se identifica. 
E, não posso deixar de citar a solidão a dois, tão conhecida por muitas pessoas, infelizmente.
O filósofo conclui o livro - curto, porém denso - de modo otimista. Confesso que achei que isso seria impossível após a abordagem da solidão ao longo dos capítulos anteriores. É nesse ponto que Karnal insere a solitude na cena. Segundo ele:
"Apenas na solidão tornada solitude eu consigo um período de mínimo distanciamento para redescobrir quem eu sou e, acima de tudo, quem eu não sou." (página 184)
E acredito que aprendemos um pouco sobre solidão e solitude nest período de pandemia, em que fomos obrigados a aturar, aceitar e, finalmente, apreciar nossa própria companhia. Ah, um ponto importante é que o livro é anterior à pandemia, logo, muita coisa mudou. A solidão em meio a uma multidão virtual, por exemplo, deve ter se intensificado, e doenças como depressão e ansiedade devem ter aumentado bastante, entre outras coisas.
"Perceber que sim, necessito do outro, porém não de forma absoluta, transforma a solidão em potência criativa e sem a carga de humilhação da solidão patológica." (página 183)
A questão latente ao longo do livro todo é que somos todos sós (já dizia O Teatro Mágico em "Um Filme", afinal), de modo que nos resta saber lidar com nossos momentos de solidão e saber que ser só não precisa ser sinônimo de estar só. Cultivar relações é tão importante quanto saber valorizar a própria companhia. 
"Terminaremos todos solitários em um túmulo algum dia. Exercitar o lado criativo e libertador do isolamento é evitar que o túmulo surja ainda em vida." (página 189)

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Classificação:  

Espero que gostem da resenha e desejo a todos um Feliz Ano Novo!

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